Pelos Arredores

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O cheiro a madeira queimada e o gosto a pó na boca e nos dentes. As pernas e os braços pesados. A cabeça a vaguear nos sonhos profundos do outono e o Cristo interior a nadar entre as algas das ondas. O guerreiro desarmado, com todo o poder nas mãos, a dizer coisas incompreensíveis no jardim ao lado. O retrato amassado junto à janela e o medo a pairar lá fora, no nevoeiro inerte. A arte da ligação em todos os objetos e o bruxo da fé a revelar segredos encostado ao ouvido, sereno como um cão. A vida a deslizar por entre os dedos inchados. Calculo o que dizem os mortos. Reclamo por tudo e por nada. Entro frenético nas chagas dos vivos com o fogo da carne. Pelos arredores, durante as noites de verão, apenas os bichos rastejam nas mentes cansadas. Apenas o ar esganado sufoca no escuro. Penso e não sei. Sei mas não penso. É o vento da loucura a rondar voraz pela vizinhança.

 

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Descobrimento Português

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Hoje, depois de servir, sentamo-nos todos na mesa dos restos e o vinho abundante, cozido no fogo, cobriu a tortura no rosto dos servos e a gula amarga na boca dos pobres. O mar é a mesa, a terra o trabalho. Os amos relincham no prazer salgado das travessas cheias, os pratos vomitam na toalha sedosa, o som dos talheres relembra os brandires da guerra e as minhas mãos negras seguram nas palmas brancas uma espinha partida e uma faca afiada. Devoro no balanço das ondas o enjoo dos mares. Somos bucaneiros, somos servos de homens, temos fé e fome. O sebo do convés traz odores vivos e a miséria humana quebra a servidão no partilhar das horas e do medo oculto. Pelo calor bruto das galés sebosas correm sons de flautas, ventanias doces, pelos mastros negros sobem fios de algas e espirais de vozes desparasitadas, pela minha boca grossa pendem escamas mortas, podridões de cascas e vinhos azedos. E num turbilhão de aves sem ninho choramos resina e petróleo vivo. O mundo em pavimento de ossos sulca as vagas turvas das chuvas de outono, busca servidão e cheiros de almas cruas, crava as garras tensas no ouro e na arte. Pega luz de sangue, disse o pescador. Pega ferro e fogo, digo atordoado. Limpo o ranho branco do nariz imundo e alto! Já lá vão os dias de alegria. Só na vaga esperança de um descobrimento que é o conhecer o que é desconhecido, rasgo os mapas velhos dos caminhos vistos e procuro a vida só como ela existe.

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Acorda monstro!

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Regressou o sono pelas portas da vida, pelas águas turvas dos sedimentos do mar. Acalmou a ânsia da predação telúrica que subia dos fundos, despertou os sonhos mortos gravados nas pedras das praias e no peito arqueado dos destroços das naus. Adormeci afogado na biomassa das ondas, rejeitando a sabedoria diluída no sal e os tesouros enterrados na lama. Parti para os sonhos gelados das águas, onde encontrei os meus semelhantes cobertos de escamas e os meus predadores agitando os braços. Na fúria salgada da fome lançaram arpões carregados de sangue e cantaram com voz estragada os versos rasgados da guerra da vida. O meu corpo morto continua no sono e no sonho, no sonho e no sono, artérias envenenadas, cérebro esfacelado, coração embalado… quando um igual passa por mim veloz e declama em prosa… Acorda monstro!

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Páginas Secas

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Nas profundezas do meu cavername, no espaço que abarca as costelas e a carne, o teu sorriso nada como um fantasma esquecido, na podridão dos destroços corroídos pelo sal das marés. Sou constantemente atraído para o esquecimento e para a surdez dos sentidos que apuraste na tua apneia dos leitos e é para os teus braços mirrados que lanço estes cardumes de prosas, é na tua glote que te estrangulo e te sufoco no silêncio que emerge dos intestinos da terra. Todas as manhãs, afogado no sono das águas, espero o despertar das noites poeirentas e os beijos rústicos que te bailam nos dentes, enquanto o restauro do templo sobe do sufoco da terra, do cheiro intenso a resina, do sangue seco dos mortos e só depois dos abraços destilo o suor com que sonhas acordada todos os segundos que passas suavemente pela vida que não vives, o suor que me escorre pela cegueira das mãos calejadas de alar, cortadas pelos ventos, queimadas pelo sal. Esqueço-te e relembro-te a cada momento. Construo contigo as páginas secas dum alfarrábio ilegível. É para norte que te dirijo, é para norte que te levo pela agulha do magnete para onde pertences, para o espaço de onde nunca deverias ter saído, onde devorado por todas as faunas marinhas mantenho os meus ossos lustrosos entre as sucatas dos fundos.

 

 

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Memórias de espumas

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Ao eco profundo dos sinos, os nossos corpos estremeceram no escuro dos mortos e na luz da vida, criativos e desesperados, vingados na terra e resgatados no mar, ao som surdo das sereias das pedras, ao luminol dos limos e ao vogar das ondas. Anima-te companheiro. As nossas mulheres que choram, renderam-se à vida. Sabemos lá nós as dores por que passam, os gritos que calam, as memórias que esquecem. Pescamos no mar, servimos em terra, morremos em terra, espalhamos no mar, morremos no mar, descansamos nos prados. Raro se vê o que não se acredita. Somos um só e milhões de povos, que vieram das águas e virão de novo, enrolados nas ondas em fósseis de areias, lembrando a memória dos que nasceram cobertos de espuma e vestidos de esperança.

 

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Pega! Isto é para ti.

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E no cálcio dos dentes da vida, rumores de guerras maltrataram os cérebros dos que nadavam, na vâ esperança de escapar ilesos e vitoriosos sob a alçada de pátrias mesquinhas, que se venderam na corrupção dos homens e nos açoites das bestas, enquanto as vagas destruidoras na noite escura derramaram as suas lágrimas de sal sobre as cidades emersas. Muitos viveram para contar, poucos contaram o que viveram. No limite das forças e na espuma dos dias, as algas e o limo renovaram as margens submersas na morte, que tinha cobrado, milénios atrás, coroas e báculos e perfumes e ossos. Pega! Isto é para ti. Disse ele com a mão estendida. O mar é teu amigo. Podes esperar o dia em que trará essa morte que esperas e essa vida que é tua e o silêncio dos surdos e tudo mais que pedires.

 

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Abril

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Vais-te abril gelado, nas águas que quebram as quilhas, embrulhado nos mundos de sono e nos ossos da vida e a proa em sentido, Senhor, lá vai moribunda de forças granjear o destino rude e as mãos salgadas, rasgando os ventres que ficam. Pelos calcários marinhos se digladiam soturnas bestas do invisível e eu, abaixo do mundo, rastejo no limo da imensidão e das pedras gastas, onde rebentam as ondas sujas e as vagas de espuma. Sou a casca dentro da casca, que voga num só sentido, que caça todas as raças, que escuta só quando sobe. Chegaram as tripas das águas com velhas notícias e a velocidade das velas cheira a maresia, o convés a dor e o nevoeiro a morte. São chamas que devoram águas, gelos que entronizam mares, bichos que vêm da luz. Abril não pára e os meus pés submetem-se. O caminho está livre e a costa ocupada. Somos nós que chegamos em roupagens de força, com a lança na mão, no silêncio da guerra, somos a vitória das espécies e a derrota do ser e neste atracar devoramos as carnes salgadas e o vinho miserável que trouxemos connosco para as ocasiões semelhantes.

 

 

 

 

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