Abril

Fraser-Island-shipwreck

 

Vais-te abril gelado, nas águas que quebram as quilhas, embrulhado nos mundos de sono e nos ossos da vida e a proa em sentido, Senhor, lá vai moribunda de forças granjear o destino rude e as mãos salgadas, rasgando os ventres que ficam. Pelos calcários marinhos se digladiam soturnas bestas do invisível e eu, abaixo do mundo, rastejo no limo da imensidão e das pedras gastas, onde rebentam as ondas sujas e as vagas de espuma. Sou a casca dentro da casca, que voga num só sentido, que caça todas as raças, que escuta só quando sobe. Chegaram as tripas das águas com velhas notícias e a velocidade das velas cheira a maresia, o convés a dor e o nevoeiro a morte. São chamas que devoram águas, gelos que entronizam mares, bichos que vêm da luz. Abril não pára e os meus pés submetem-se. O caminho está livre e a costa ocupada. Somos nós que chegamos em roupagens de força, com a lança na mão, no silêncio da guerra, somos a vitória das espécies e a derrota do ser e neste atracar devoramos as carnes salgadas e o vinho miserável que trouxemos connosco para as ocasiões semelhantes.

 

 

 

 

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