Páginas Secas

sem nome

Nas profundezas do meu cavername, no espaço que abarca as costelas e a carne, o teu sorriso nada como um fantasma esquecido, na podridão dos destroços corroídos pelo sal das marés. Sou constantemente atraído para o esquecimento e para a surdez dos sentidos que apuraste na tua apneia dos leitos e é para os teus braços mirrados que lanço estes cardumes de prosas, é na tua glote que te estrangulo e te sufoco no silêncio que emerge dos intestinos da terra. Todas as manhãs, afogado no sono das águas, espero o despertar das noites poeirentas e os beijos rústicos que te bailam nos dentes, enquanto o restauro do templo sobe do sufoco da terra, do cheiro intenso a resina, do sangue seco dos mortos e só depois dos abraços destilo o suor com que sonhas acordada todos os segundos que passas suavemente pela vida que não vives, o suor que me escorre pela cegueira das mãos calejadas de alar, cortadas pelos ventos, queimadas pelo sal. Esqueço-te e relembro-te a cada momento. Construo contigo as páginas secas dum alfarrábio ilegível. É para norte que te dirijo, é para norte que te levo pela agulha do magnete para onde pertences, para o espaço de onde nunca deverias ter saído, onde devorado por todas as faunas marinhas mantenho os meus ossos lustrosos entre as sucatas dos fundos.

 

 

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