Descobrimento Português

nau

Hoje, depois de servir, sentamo-nos todos na mesa dos restos e o vinho abundante, cozido no fogo, cobriu a tortura no rosto dos servos e a gula amarga na boca dos pobres. O mar é a mesa, a terra o trabalho. Os amos relincham no prazer salgado das travessas cheias, os pratos vomitam na toalha sedosa, o som dos talheres relembra os brandires da guerra e as minhas mãos negras seguram nas palmas brancas uma espinha partida e uma faca afiada. Devoro no balanço das ondas o enjoo dos mares. Somos bucaneiros, somos servos de homens, temos fé e fome. O sebo do convés traz odores vivos e a miséria humana quebra a servidão no partilhar das horas e do medo oculto. Pelo calor bruto das galés sebosas correm sons de flautas, ventanias doces, pelos mastros negros sobem fios de algas e espirais de vozes desparasitadas, pela minha boca grossa pendem escamas mortas, podridões de cascas e vinhos azedos. E num turbilhão de aves sem ninho choramos resina e petróleo vivo. O mundo em pavimento de ossos sulca as vagas turvas das chuvas de outono, busca servidão e cheiros de almas cruas, crava as garras tensas no ouro e na arte. Pega luz de sangue, disse o pescador. Pega ferro e fogo, digo atordoado. Limpo o ranho branco do nariz imundo e alto! Já lá vão os dias de alegria. Só na vaga esperança de um descobrimento que é o conhecer o que é desconhecido, rasgo os mapas velhos dos caminhos vistos e procuro a vida só como ela existe.

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