Pelos Arredores

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O cheiro a madeira queimada e o gosto a pó na boca e nos dentes. As pernas e os braços pesados. A cabeça a vaguear nos sonhos profundos do outono e o Cristo interior a nadar entre as algas das ondas. O guerreiro desarmado, com todo o poder nas mãos, a dizer coisas incompreensíveis no jardim ao lado. O retrato amassado junto à janela e o medo a pairar lá fora, no nevoeiro inerte. A arte da ligação em todos os objetos e o bruxo da fé a revelar segredos encostado ao ouvido, sereno como um cão. A vida a deslizar por entre os dedos inchados. Calculo o que dizem os mortos. Reclamo por tudo e por nada. Entro frenético nas chagas dos vivos com o fogo da carne. Pelos arredores, durante as noites de verão, apenas os bichos rastejam nas mentes cansadas. Apenas o ar esganado sufoca no escuro. Penso e não sei. Sei mas não penso. É o vento da loucura a rondar voraz pela vizinhança.

 

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